27.10.17

these sleeping dogs won't lie

a primeira vez em que pousei meus olhos neles, estávamos todos dividindo o mesmo ônibus. não pareciam habituados com a intimidade ali contida, apesar de desfrutarem dela. depois de algum tempo, reparei bem. ele usava uma aliança prateada no anelar direito; já ela, portava com certa delicadeza um grande diamante na mão esquerda, cercado por um anel dourado e reluzente. 

acredito que costumavam sair do trabalho próximo ao meu horário pois dali em diante passei a vê-los com certa frequência. às vezes, quando sentados, ele apoiava a cabeça no ombro dela enquanto acariciava o seu cabelo e nuca. vi aquele dia, uma quinta-feira, ele beijar levemente a lateral do braço dela. se estavam em pé, ele procurava manter a mão em sua cintura enquanto contava alguma história engraçada que a fazia gargalhar alto, sem vergonha alguma de ser feliz.

ele, sob a minha ótica, parecia estar em uma posição sobreposta àquele outro. maior e mais próxima. ele, que prestava atenção. e você também. ela se concentrava no toque dele e parecia esquecer que todo o resto é uma confusão criada para suprir vai-saber-o-que. mesmo com suas vidas cheias, fizeram questão de se inserirem ali.

eu os invejava.

11.10.17

hoje recebi essa carta do meu pai:

Eu não me lembro realmente se sonhei me casar ou ter filhos. Mas aconteceu...
Um dia me casei, depois tive uma filha, outra e mais uma.
Eu não fazia ideia de quanta felicidade isso poderia trazer. Mas acho que ninguém, que ainda não tenha construído uma família, possa ter a noção de quanto importante e valioso isso seja.
Conviver com a Adélia tornou-se algo desafiador à medida que fomos nos conhecendo e surgiram as diferenças. É um adaptar-se e um compreender constante. Cada aspecto que já gostava nela realçou e adquiriu mais valor, fazendo com que as diferenças se tornassem cada vez menos importantes. Cada vício ou sentimento ruim que eu tinha, passei a controlar e combater. Eu tinha que tentar ser um pouco melhor a cada dia. Juntos, superamos várias dificuldades e sorrimos muito mais. Somos felizes.
Com a chegada da Aline, pude começar a vivenciar a experiência fantástica que é ser pai. E a grande responsabilidade que isto traz. Depois veio a Luma e por fim a Laura. Todas presentes maravilhosos de Deus.
À medida que o tempo tem passado, fico cada vez mais impressionado com o fato de pessoas que são tão parecidas fisicamente, tenham personalidades tão diferentes.
Minhas filhas, tenho me esforçado durante toda minha vida para que tenhamos um mínimo de condições materiais para proporcionar conforto e prazer a esta família. Mas isto não basta. Cada dia é um novo desafio. Novas aventuras cercam as vidas de vocês e, por mais que tente ficar de fora, gosto de estar por perto para proteger, ajudar ou simplesmente rir junto.
Fico muito feliz quando vejo as três juntas brincando ou simplesmente por perto uma das outras. Não tenho a ilusão de que sempre vão estar rindo, a vida não é assim. Vocês têm idéias e experiências diferentes, mas o que vão fazer com elas é o que vale mais. Saber administrar seus egos e vaidades. Aprender a conhecer suas qualidades e limitações, e lidar com isso tudo. Não vão concordar sempre, mas lembrem-se: ninguém é mais importante que a sua família.
Vocês terão sempre muitos amigos e eles estarão por perto. Isso é muito bom! Dêem o devido valor aos amigos, eles nos ajudam a sermos felizes. Mas um amigo nunca vai substituir um irmão. São coisas bem diferentes.
Em breve vocês vão ter suas próprias famílias (tá chegando, né Aline?), e vão sentir a imensa alegria de ver seu marido e seus filhos bem e felizes. Nesta hora, em algum lugar dentro de vocês, espero ter deixado uma pequena parte de mim, que seja responsável por esta felicidade. Estarei por perto e muito orgulhoso.
O sucesso profissional virá para cada uma dentro da sua área escolhida, não tenho dúvidas. São inteligentes, determinadas e astutas. Além de bonitas, é claro.
E quanto a vocês agregados, tenho a mais forte confiança nos dois (ainda não estou contando o “Jorge”). Sei que estarão ao lado das minhas filhas apoiando e colaborando na felicidade delas. Até porque se não for assim, o bicho vai pegar... (“olha a munheca”). Estamos juntos há algum tempo e aprendi a respeitar e admirar os dois. Sei que são boas pessoas e gostam das “meninas”.
Para concluir, escrevi para deixar claro o quanto a família é importante e, quanto é difícil às vezes, se lembrar disso. Mas principalmente para dizer a cada um, que minha família (e agregados) é a melhor!
Ah, quase ia esquecendo, sinto falta de um beijinho no rosto ou de um abraço... beijo e abraço de filho é muito bom.

12.8.17

"It's like staring at the sun. You know you should probably stop, but it's the most intense feeling in the whole world that you can't help but look. And being the one in her favor, there's nothing better."

15.7.17

(nothing but) flowers

veio como uma brisa, carregando um monte de fumaça, problemas e sujeira e, em questão de dias, se transformou em um vendaval. ainda que de aparência frágil - talvez até sensível - demonstrou uma força enorme e muita vontade de continuar.

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eu sempre quis tanto amor, mas nenhum dos meus amores me bastou. tive tanto e todos e nunca me senti cheia até a borda. não fui preenchida, assim como não fui inteira de qualquer um deles. tão iguais em suas peculiaridades, eles me surpreenderam apenas por pouco tempo. eu poderia copiar os mesmos textos, as mesmas estrofes, a mesma poesia. eram os livros, a música, o álcool, momentos e alucinações. uma vida externa, que nunca foi inteiramente minha. fingi tanto e nunca por completo. eles faziam com que eu me sentisse especial e isso eu não podia tolerar. não era diferente, era só uma faceta. eu sabia o que falar e quando calar. tão simples para mim. nada óbvio para eles.

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me esquivei por muito tempo. aparentava não sentir nada, mas sentia tudo em grande escala. e sinto, até hoje. não me permiti vivenciar por inteiro, então vivo aos pedaços.

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não sabia se me machucava pelo tédio, pelo torpor, pela procura infinita daquilo que nem sei o que é. mas eu queria. e fui egocêntrica na minha busca implacável pelo sentir, ferindo tudo e todos que ousavam me rodear. só pelo prazer de ser atingida ou acometida por algo, de repente. surpresa.

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trancada na cabine do banheiro do trabalho, choro dores de amores que não vivi. eu, com a luz que eles dizem perceber em mim, ofusquei a todo o resto.